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1. Sobre o pedido de recuperação judicial

1.2. Quais empresas podem requerer recuperação judicial? Existem exclusões?

A recuperação judicial é o instrumento que a Lei 11.101/2005 oferece ao devedor em crise econômico-financeira para reorganizar o passivo e preservar a atividade, os empregos e os interesses dos credores (art. 47). Mas o instrumento não está à disposição de qualquer pessoa endividada: a lei o reserva ao empresário e à sociedade empresária (art. 1º), exclui expressamente determinadas entidades (art. 2º) e, desde janeiro de 2026, convive com uma nova barreira de acesso criada fora dela, ou seja, a vedação ao devedor contumaz, instituída pela Lei Complementar 225/2026 e validada pelo STF.

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Saber se o devedor é legitimado é a primeira pergunta de qualquer planejamento de recuperação, porque a resposta negativa não se corrige no curso do processo: o pedido é indeferido de plano ou, pior, a recuperação já deferida pode ser convolada em falência. Este tópico organiza a matéria em três camadas: quem pode, quem a lei exclui e quem foi excluído pela LC 225/2026. Vejamos:

 

Quem pode requerer recuperação judicial

  • Empresário individual: a pessoa natural que exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços (Código Civil, art. 966, caput), inscrita no Registro Público de Empresas Mercantis. A inscrição na Junta Comercial não é formalidade vazia: é ela que confere a condição de empresário regular, pressuposto do exercício "há mais de 2 (dois) anos" exigido pelo art. 48 da Lei 11.101/2005 (1).

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  • Sociedade empresária: a sociedade que tem por objeto o exercício de atividade própria de empresário (Código Civil, art. 982), ou seja,  sociedades limitadas, inclusive a limitada unipessoal (que substituiu a extinta EIRELI a partir da Lei 14.195/2021), sociedades anônimas (empresárias por força de lei, qualquer que seja o objeto — art. 982, parágrafo único), sociedades em nome coletivo e em comandita. O porte é irrelevante para a legitimidade: da microempresa à grande corporação, todas podem requerer; o que muda é a possibilidade de plano especial para ME e EPP (2).

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  • Produtor rural: o produtor que exerce a atividade rural de forma empresarial pode requerer recuperação judicial, desde que esteja inscrito na Junta Comercial no momento do pedido, computando-se o biênio do art. 48 com base na comprovação da atividade, e não do registro (art. 48, §§ 2º e 3º, da Lei 11.101/2005, na redação da Lei 14.112/2020; Tema Repetitivo 1.145/STJ). O tema tem particularidades próprias, tratadas em tópico específico (3).

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  • Grupo empresarial: sociedades integrantes de grupo sob controle societário comum podem requerer em litisconsórcio ativo (consolidação processual), mas cada uma delas deve preencher, individualmente, os requisitos de acesso (art. 69-G, § 1º). O grupo empresarial não é porta de entrada para sociedade que, sozinha, não seria legitimada (4).

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  • Cooperativa médica operadora de plano de saúde: a cooperativa é sociedade simples por definição legal (Código Civil, art. 982, parágrafo único) e, como tal, estaria fora do art. 1º. A Lei 14.112/2020, contudo, abriu uma exceção pontual: o art. 6º, § 13, da Lei 11.101/2005 afasta a vedação do art. 2º, II, quando a operadora de plano de saúde for cooperativa médica. O STJ confirmou a legitimidade dessas cooperativas no julgamento dos REsp 2.183.710/SP e 2.183.714/SP (Quarta Turma, Rel. Min. Marco Buzzi, 2025). A exceção é estrita: não se estende, por analogia, às demais cooperativas.

 

Quem a Lei 11.101/2005 exclui

  • Empresa pública e sociedade de economia mista: excluídas pelo art. 2º, I. A razão é institucional, pois essas entidades integram a Administração Pública indireta, dependem de autorização legislativa para existir e têm a continuidade garantida (ou decidida) pelo ente controlador, não por um plano negociado com credores.

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  • Instituições financeiras e entidades equiparadas: instituições financeiras públicas ou privadas, cooperativas de crédito, consórcios, entidades de previdência complementar, operadoras de planos de saúde, seguradoras, sociedades de capitalização e "outras entidades legalmente equiparadas" (art. 2º, II). Todas estão submetidas a regimes especiais de intervenção e liquidação extrajudicial conduzidos pelo respectivo órgão regulador (Banco Central, SUSEP, ANS, PREVIC), incompatíveis com a lógica negocial da recuperação. A única exceção é a cooperativa médica, vista acima.

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  • Quem não é empresário — profissionais intelectuais: quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda que com o concurso de auxiliares, não é empresário (Código Civil, art. 966, parágrafo único), salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa, isto é, quando a organização dos fatores de produção se sobrepõe ao trabalho pessoal do profissional. Sociedades de advogados, consultórios e escritórios de contabilidade organizados como sociedades simples, portanto, não têm acesso à recuperação; a clínica ou o hospital estruturado empresarialmente, sim.

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  • Quem não é empresário — sociedades simples, associações e fundações: a sociedade simples (Código Civil, art. 982), a associação e a fundação não exercem atividade empresarial e não se enquadram no art. 1º. Quanto às fundações privadas, o STJ encerrou a controvérsia: no julgamento dos REsp 2.026.250/MG e 2.036.410/MG (Terceira Turma, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 01/10/2024, por maioria), firmou que as fundações de direito privado não têm legitimidade para o pedido de recuperação judicial, que o legislador da Lei 14.112/2020 teve a oportunidade de incluí-las e não o fez, e que as entidades que já gozam de imunidade tributária não devem acumular o benefício da recuperação. Quanto às associações e às cooperativas em geral, há decisões de tribunais estaduais em ambos os sentidos, mas ainda não há jurisprudência do STJ que tenha consolidado a questão; a orientação prudente é tratar a vedação como regra.

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  • Sociedade em conta de participação: não tem personalidade jurídica e atua exclusivamente por meio do sócio ostensivo, em nome próprio (Código Civil, arts. 991 a 996). Não pode, por isso, figurar como devedora em recuperação judicial, o que não impede o sócio ostensivo, se empresário, de requerê-la em nome próprio.

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  • Patrimônio de afetação (SPE imobiliária): a sociedade de propósito específico com patrimônio de afetação constituído na forma da Lei 4.591/1964 pode até ser sociedade empresária, mas o patrimônio afetado é segregado e incomunicável, destinado exclusivamente à conclusão do empreendimento. Por isso, o STJ tem decidido que esses patrimônios não se submetem aos efeitos da recuperação judicial da incorporadora (REsp 2.164.771/SP, 2.205.476/SP e 2.205.480/SP, Terceira Turma, 2026), na linha do Enunciado 628 da VIII Jornada de Direito Civil do CJF. Não se trata, tecnicamente, de ilegitimidade do devedor, e sim de não sujeição de parte do seu patrimônio, distinção que importa na montagem do plano.

 

 

Vedação da recuperação judicial ao devedor contumaz (Lei Complementar 225/2026)

A terceira camada de exclusão não está na Lei 11.101/2005. A Lei Complementar 225, de 8 de janeiro de 2026, que instituiu o Código de Defesa do Contribuinte e entrou em vigor, nessa parte, na data de sua publicação (art. 58, II), criou a figura do devedor contumaz e, entre as medidas aplicáveis a ele, previu o impedimento de "propositura de recuperação judicial ou de prosseguimento desta, motivando a convolação da recuperação judicial em falência a pedido da Fazenda Pública correspondente" (art. 13, I, "d"). A norma não alterou o texto da Lei 11.101/2005, mas atua sobre ela de fora: um devedor que é empresário regular, não está no art. 2º e preenche os requisitos do art. 48 pode, ainda assim, ter a porta da recuperação fechada, ou a recuperação em curso convertida em falência, por força de um enquadramento administrativo-tributário.

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  • Quem é o devedor contumaz: "o sujeito passivo cujo comportamento fiscal se caracteriza pela inadimplência substancial, reiterada e injustificada de tributos" (art. 11, caput). Os três adjetivos são cumulativos e têm definição legal (art. 11, § 2º): (i) substancial, no âmbito federal, é a existência de créditos tributários em situação irregular, inscritos em dívida ativa ou constituídos e não pagos, de valor igual ou superior a R$ 15.000.000,00 e equivalente a mais de 100% do patrimônio conhecido do devedor, assim entendido o ativo total do último balanço registrado na ECF ou na ECD (inciso I, "a"); Estados, Distrito Federal e Municípios definem os próprios parâmetros em lei (inciso I, "b"); (ii) reiterada é a manutenção da irregularidade em pelo menos quatro períodos de apuração consecutivos, ou seis alternados, no prazo de doze meses (inciso II); (iii) injustificada é "a ausência de motivos objetivos que afastem a configuração da contumácia" (inciso III). A lei alcança também a parte relacionada de pessoa jurídica baixada ou inapta que se enquadre nos critérios (art. 11, § 7º).

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  • Os motivos objetivos que afastam a contumácia: o sujeito passivo pode demonstrar (art. 11, § 5º): circunstâncias externas que envolvam estado de calamidade reconhecido pelo poder público; apuração de resultado negativo no exercício corrente e no anterior, salvo indícios de fraude ou má-fé; e, no caso de execução fiscal, ausência de fraude à execução, como a não distribuição de lucros e dividendos, o não pagamento de juros sobre capital próprio, a não redução do capital social e a não concessão de empréstimos ou mútuos pelo devedor. Para a empresa em crise, este é o dispositivo decisivo: a prova de prejuízo em dois exercícios e de que o caixa não foi drenado para os sócios é o que separa o devedor em dificuldade do contumaz.

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  • O processo administrativo prévio: a caracterização como devedor contumaz exige notificação prévia (art. 11, § 1º) e processo administrativo com garantias mínimas (art. 12): indicação dos créditos que dão causa ao enquadramento, decisões fundamentadas e prazo de 30 dias, contado da notificação, para regularizar os créditos ou apresentar defesa com efeito suspensivo, assegurados contraditório e ampla defesa (art. 12, III). Quem não regulariza nem se defende é declarado revel e caracterizado como contumaz (art. 12, § 1º). O efeito suspensivo não é assegurado nas hipóteses do § 5º do art. 12 (constituição de empresa para fraude, ocultação de bens, entre outras). O enquadramento pode ser reavaliado a pedido do interessado que demonstre a cessação dos motivos, inclusive por caso fortuito ou força maior (art. 12, § 2º).

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  • Saídas e cessação da condição: o pagamento integral encerra o procedimento; a negociação integral dos créditos (parcelamento ou transação), com adimplemento regular, o suspende (art. 14). O devedor deixa de ser contumaz quando não houver novos créditos que sustentem a condição e os créditos tiverem sido extintos ou houver demonstração de patrimônio conhecido em valor igual ou superior aos débitos que motivaram a inclusão (art. 15). A Receita Federal inclui e retira o devedor dos cadastros que administra, inclusive o Cadin, com divulgação em sítios oficiais (art. 16).

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  • Os dois efeitos sobre a recuperação judicial: o art. 13, I, "d", produz efeitos em dois momentos distintos. Antes do pedido, o devedor enquadrado não pode propor recuperação judicial, passando a contumácia a ser, na prática, um pressuposto negativo de admissibilidade, a ser aferido ao lado do art. 48 (1). Depois do deferimento, o devedor enquadrado não pode prosseguir na recuperação, e a Fazenda Pública correspondente fica legitimada a requerer a convolação em falência, hipótese nova, que se soma às do art. 73 da Lei 11.101/2005 (5). A legitimidade conferida à Fazenda é notável porque o crédito tributário não se sujeita à recuperação (6): o Fisco, que não vota o plano nem sofre deságio, passa a ter o poder de encerrá-la.

 

 

O que o STF decidiu na ADI 7.943

O Conselho Federal da OAB impugnou o art. 13, I, "d", sustentando tratar-se de sanção política, forma coercitiva de cobrança de tributos, violadora da livre iniciativa, do acesso à Justiça, do devido processo legal e do princípio da preservação da empresa, à luz das Súmulas 70, 323 e 547 do STF. O Plenário, em sessão virtual encerrada em 21/08/2026, julgou a ação improcedente, por unanimidade, seguindo o voto do relator, Min. Flávio Dino. Os fundamentos centrais foram: (i) a livre iniciativa não é absoluta e os princípios da livre concorrência, da capacidade contributiva e da isonomia exigem que o Estado combata o uso do não pagamento sistemático de tributos como vantagem competitiva; (ii) a preservação da empresa protege quem atua de boa-fé e com lealdade fiscal, não o devedor contumaz; (iii) não há sanção política nem falência automática, porque a aplicação do impedimento exige procedimento administrativo prévio, com contraditório e ampla defesa, sujeito a controle judicial; (iv) a restrição "não é ampla e genérica" — atinge universo reduzido, estimado em cerca de 0,081% dos devedores inscritos em dívida ativa.

 

O ponto que interessa à empresa em crise é o fundamento (iii): a constitucionalidade foi declarada em abstrato e sob a premissa de que cada enquadramento concreto permanece aberto ao controle jurisdicional. É nesse espaço que se joga a defesa.

 

 

O que a empresa em crise deve fazer desde já

  • Medir a exposição: comparar o passivo tributário em situação irregular com o ativo total do último balanço. A contumácia federal exige as duas condições, R$ 15 milhões e mais de 100% do patrimônio conhecido, o que concentra o risco nas empresas de maior porte com balanço deteriorado. Conferir, ainda, se o Estado e o Município já editaram lei própria com parâmetros menores (art. 11, § 2º, I, "b").

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  • Documentar os motivos objetivos: prejuízo contábil em dois exercícios, ausência de distribuição de lucros, de juros sobre capital próprio, de redução de capital e de mútuos a sócios (art. 11, § 5º). Esses registros devem existir antes da notificação, não depois.

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  • Respeitar o prazo de 30 dias: a notificação do art. 12 abre um prazo único para regularizar ou defender-se com efeito suspensivo; a revelia caracteriza a contumácia automaticamente (art. 12, § 1º).

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  • Negociar antes de pedir: a transação ou o parcelamento integral suspende o procedimento (art. 14) e, por consequência, afasta o impedimento. Em devedores com passivo fiscal relevante, a negociação com a Fazenda deixa de ser etapa posterior à recuperação (como se discutia à luz do art. 57 da Lei 11.101/2005) e passa a ser pressuposto do próprio pedido.

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  • Avaliar o momento do pedido: uma vez caracterizada a contumácia, a porta se fecha. A empresa que se aproxima dos parâmetros legais e já identifica a necessidade de reestruturação deve ponderar o ajuizamento antes do enquadramento — sabendo que, mesmo assim, a Fazenda poderá pedir a convolação se o enquadramento sobrevier.

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Uma crítica merece registro, porque orienta a defesa: a lei mede o tamanho e a persistência da dívida, não a má-fé. O fraudador e a empresa que atrasou tributos para pagar salários e fornecedores podem cair no mesmo enquadramento, e a boa-fé só aparece como exceção a ser provada pelo contribuinte (art. 11, § 5º). O incentivo que daí resulta, priorizar o Fisco em detrimento da folha e da cadeia de fornecimento, ou pedir recuperação antes da hora, é o oposto do que o art. 47 da Lei 11.101/2005 pretende. Por isso, a prova dos motivos objetivos não é formalidade: é o argumento que devolve ao caso concreto a distinção que a norma abstrata não faz.

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Portanto, a legitimidade para a recuperação judicial resulta hoje de um exame em três camadas. A primeira é positiva: ser empresário ou sociedade empresária regularmente inscrita (ou cooperativa médica, por exceção expressa). A segunda é negativa e taxativa: não integrar o rol do art. 2º da Lei 11.101/2005, nem ser fundação, associação, sociedade simples ou sociedade sem personalidade. A terceira é a mais recente e a única que pode surgir depois do deferimento: não ter sido caracterizado como devedor contumaz nos termos da LC 225/2026, cuja validade o STF confirmou na ADI 7.943 justamente porque cada enquadramento permanece sujeito a contraditório e a controle judicial. Para a empresa em crise com passivo fiscal relevante, o planejamento da recuperação começa, agora, pela gestão da relação com o Fisco.

Doutrina, enunciados, jurisprudência e artigos sobre o tema:

​Gladston Mamede:

​“A riqueza pessoal do sócio ilimitadamente responsável não pode ser empecilho para que a sociedade da qual é membro, e que enfrenta crise econômico-financeira, peça e obtenha o benefício da recuperação judicial. A recuperação judicial não é benefício que se conceda apenas a sociedades em que haja limite de responsabilidade. A capacidade do sócio ilimitadamente responsável de solver, com seu patrimônio pessoal, o passivo da sociedade em crise econômico-financeira não impede a sociedade de pedir a recuperação judicial, nem o obriga a antecipar sua responsabilidade subsidiária.” (Mamede, Gladston. Direito Empresarial Brasileiro - Falência e Recuperação de Empresas - 13ª Edição 2022 (Portuguese Edition) (pp. 235-236). (Function). Kindle Edition.)

Enunciado 628 - VIII Jornada de Direito Civil (CJF)

“Os patrimônios de afetação não se submetem aos efeitos de recuperação judicial da sociedade instituidora e prosseguirão sua atividade com autonomia e incomunicáveis em relação ao seu patrimônio geral, aos demais patrimônios de afetação por ela constituídos e ao plano de recuperação até que extintos, nos termos da legislação respectiva, quando seu resultado patrimonial, positivo ou negativo, será incorporado ao patrimônio geral da sociedade instituidora.”

Legislação aplicável ao tema:

Lei 11.101/2005

​Art. 1º Esta Lei disciplina a recuperação judicial, a recuperação extrajudicial e a falência do empresário e da sociedade empresária, doravante referidos simplesmente como devedor.

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Art. 2º Esta Lei não se aplica a:

I – empresa pública e sociedade de economia mista;

II – instituição financeira pública ou privada, cooperativa de crédito, consórcio, entidade de previdência complementar, sociedade operadora de plano de assistência à saúde, sociedade seguradora, sociedade de capitalização e outras entidades legalmente equiparadas às anteriores.

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Art. 6º A decretação da falência ou o deferimento do processamento da recuperação judicial implica:

(...)

§ 13.  Não se sujeitam aos efeitos da recuperação judicial os contratos e obrigações decorrentes dos atos cooperativos praticados pelas sociedades cooperativas com seus cooperados, na forma do art. 79 da Lei nº 5.764, de 16 de dezembro de 1971, consequentemente, não se aplicando a vedação contida no inciso II do art. 2º quando a sociedade operadora de plano de assistência à saúde for cooperativa médica.

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Código Civil (Lei 10.406/2002)

​Art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços.

Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa.

 

Art. 982. Salvo as exceções expressas, considera-se empresária a sociedade que tem por objeto o exercício de atividade própria de empresário sujeito a registro (art. 967); e, simples, as demais.

Parágrafo único. Independentemente de seu objeto, considera-se empresária a sociedade por ações; e, simples, a cooperativa.

 

Lei Complementar 225/2026 (Código de Defesa do Contribuinte)

Art. 11. Para os fins desta Lei Complementar, considera-se devedor contumaz o sujeito passivo cujo comportamento fiscal se caracteriza pela inadimplência substancial, reiterada e injustificada de tributos.

§ 1º O sujeito passivo será previamente notificado, no processo administrativo de que trata o art. 12 desta Lei Complementar, sobre a possibilidade de ser considerado devedor contumaz.

§ 2º Para os fins do disposto no caput deste artigo, considera-se inadimplência:

I - substancial:

a) em âmbito federal, a existência de créditos tributários em situação irregular, inscritos em dívida ativa ou constituídos e não adimplidos, em âmbito administrativo ou judicial, de valor igual ou superior a R$ 15.000.000,00 (quinze milhões de reais) e equivalente a mais de 100% (cem por cento) do seu patrimônio conhecido, que corresponde ao total do ativo informado no último balanço patrimonial registrado na contabilidade, constante da Escrituração Contábil Fiscal (ECF) ou da Escrituração Contábil Digital (ECD);

b) em âmbito estadual, distrital e municipal — a existência de créditos tributários em situação irregular nos termos definidos em lei própria de cada ente;

II - reiterada: a manutenção de créditos tributários em situação irregular em, pelo menos, 4 (quatro) períodos de apuração consecutivos, ou em 6 (seis) períodos de apuração alternados, no prazo de 12 (doze) meses;

III - injustificada: a ausência de motivos objetivos que afastem a configuração da contumácia.

(...)

§ 5º Podem ser alegados pelo sujeito passivo para demonstrar a ocorrência de motivos objetivos que afastem a configuração de contumácia de que trata o inciso III do § 2º deste artigo a ocorrência de:

I - circunstâncias externas que envolvam estado de calamidade reconhecido pelo poder público;

II - apuração de resultado negativo no exercício financeiro corrente e no anterior, salvo indícios de fraude ou má-fé;

III - no caso de execução fiscal, ausência da prática de fraude à execução, como a não ocorrência de distribuição de lucros e dividendos, de pagamento de juros sobre capital próprio, de redução do capital social ou de concessão de empréstimos ou mútuos pelo devedor.

(...)

 

Art. 12. O processo administrativo para identificação do devedor contumaz será iniciado com a prévia notificação do sujeito passivo, de que trata o § 1º do art. 11 desta Lei Complementar, e observará, no mínimo, as seguintes garantias:

I - indicação dos créditos tributários que dão causa ao enquadramento como devedor contumaz;

II - fundamentação das decisões, com indicação precisa dos elementos de fato e de direito [completar transcrição literal];

III - concessão de prazo de 30 (trinta) dias, contado a partir da data da notificação, para:

a) regularizar a situação dos créditos tributários, por meio do pagamento do montante [completar transcrição literal];

b) apresentar defesa com efeito suspensivo, assegurado o direito ao contraditório e à ampla defesa [completar transcrição literal].

§ 1º Caso o sujeito passivo não regularize a sua situação nem apresente defesa no prazo previsto no inciso III do caput deste artigo, será declarado revel e caracterizado como devedor contumaz, aplicando-se-lhe, no que couber, as penalidades previstas no art. 13 desta Lei Complementar.

§ 2º O enquadramento como devedor contumaz e as consequentes medidas aplicadas poderão ser reavaliadas por meio de pedido fundamentado de interessado que demonstre a cessação dos motivos que o tenham justificado, inclusive com base em caso fortuito ou de força maior.

(...)

 

Art. 13. Serão aplicadas ao devedor contumaz, isolada ou cumulativamente, as seguintes medidas:

I - impedimento de:

a) fruição de quaisquer benefícios fiscais, inclusive a concessão de remissão ou de anistia [completar transcrição literal];

b) participação em licitações promovidas pela administração pública;

c) formalização de vínculos, a qualquer título, com a administração pública, como autorização ou licença [completar transcrição literal];

d) propositura de recuperação judicial ou de prosseguimento desta, motivando a convolação da recuperação judicial em falência a pedido da Fazenda Pública correspondente;

II - declaração de inaptidão da inscrição no cadastro de contribuintes da respectiva administração tributária, enquanto perdurarem as condições que motivaram a caracterização [completar transcrição literal];

(...)

 

Art. 15. O sujeito passivo deixará de ser caracterizado como devedor contumaz se:

I - não houver novos créditos tributários que sustentem a condição de devedor contumaz; e

II - os créditos tributários tiverem sido extintos ou houver demonstração de patrimônio conhecido em valor igual ou superior aos débitos que motivaram a sua inclusão.

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