Tangará da Serra/MT: Grupo Bozetti tem recuperação judicial deferida com dívida de R$ 128,5 milhões

Família de produtores rurais e transportadores do Mato Grosso soma dívida concursal de R$ 61,4 milhões e mais R$ 67 milhões em créditos extraconcursais

A Justiça de Mato Grosso deferiu o processamento da recuperação judicial do Grupo Bozetti, núcleo econômico-familiar com sede em Tangará da Serra/MT, que atua há quase quatro décadas nos setores de pecuária, transporte rodoviário de cargas, logística e mineração de calcário agrícola. A decisão reconheceu a existência de grupo econômico entre os integrantes da família e determinou o processamento sob consolidação processual e substancial, com apresentação de plano único de soerguimento aos credores.
A trajetória do Grupo Bozetti: do caminhão autônomo no Rio Grande do Sul à mineração em Mato Grosso
A história do Grupo Bozetti começa no interior de São José do Herval/RS, onde Dorvalino Bozetti nasceu em 1946. Aos 17 anos, saiu de casa em busca de trabalho e passou a atuar como motorista de ônibus, adquirindo, por volta de 1968, seu primeiro caminhão para trabalhar de forma autônoma no transporte de cargas. No início da década de 1970, conheceu Erilde Grando Bozetti, com quem se casou em 1975.
Com o boom das obras de infraestrutura rodoviária promovidas pelo governo federal, o casal ampliou a frota e passou a atuar em contratos de terraplenagem e pavimentação em diversos estados, entre eles Paraná, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Bahia, Acre e Rondônia. Nesse período nasceram os quatro filhos do casal: Luis Angelo Bozetti (1976), Alfredo Bozetti (1981), Ricardo Bozetti e Alexandre Bozetti (1989).
Em 1983, a família se estabeleceu definitivamente em Tangará da Serra/MT, onde, além de dar continuidade às atividades de transporte, iniciou a atividade de pecuária. O primeiro lote rural foi adquirido em 1988, e a aquisição sucessiva de áreas contíguas ao longo dos anos seguintes deu origem à atual Fazenda Fontoura, imóvel matriz do grupo. Com o crescimento da lavoura de soja e milho na região, a transportadora direcionou sua atuação ao transporte de calcário, adubos e grãos, formalizando-se como Transportadora Flecha em 1994. Para atender à expansão dos negócios, o grupo constituiu, em 2003, a empresa hoje denominada Bozetti Multisserviços Logísticos e Comerciais Ltda, e, em 2011, a Bozetti Transportes Ltda, chegando a operar 120 conjuntos de carretas. Paralelamente, a atividade pecuária se expandiu para o município de Brasnorte/MT, com a formação da Fazenda Castanhal.
Em outubro de 2023, o grupo deu um novo passo em sua diversificação ao adquirir uma indústria de produção de calcário agrícola em Porto Estrela/MT, batizada Pérola Mineração, aproveitando a estrutura logística já consolidada das transportadoras para produzir, vender e entregar o próprio calcário aos clientes rurais da região.
Os empresários e empresas com a recuperação judicial deferida
Tiveram o processamento da recuperação judicial deferido, em regime de consolidação processual e substancial, os produtores rurais Dorvalino Bozetti, Erilde Grando Bozetti, Luis Angelo Bozetti, Alfredo Bozetti, Ricardo Bozetti e Alexandre Bozetti, além das empresas Transportadora Flecha Ltda, Bozetti Transportes Ltda, Bozetti Multisserviços Logísticos e Comerciais Ltda e Pérola Mineração Ltda, todas integrantes do denominado Grupo Bozetti.
Os motivos da crise econômico-financeira
Segundo a petição inicial, o principal fator de desequilíbrio recente foi a aquisição da Pérola Mineração. Poucos meses após a compra, o preço médio do calcário agrícola caiu cerca de 25%, de uma faixa entre R$ 90,00 e R$ 100,00 para aproximadamente R$ 70,00 por tonelada, em razão da retração do setor agrícola provocada pela seca prolongada no Estado. A situação se agravou quando a concessionária Energisa se recusou a fornecer energia elétrica à unidade mineradora, obrigando o grupo a recorrer a uma alternativa energética mais cara, e diante do crescimento de mineradoras clandestinas, que passaram a concorrer de forma desleal no setor.
As transportadoras do grupo também foram afetadas pela baixa produção agrícola de 2023 e 2024, que reduziu o volume de fretes disponíveis e pressionou os valores cobrados, ao mesmo tempo em que o custo de peças automotivas e do óleo diesel, este último impulsionado por conflitos internacionais e por reajustes tributários no início de 2026, subiu de forma expressiva. Já na pecuária, a queda acentuada do preço da arroba bovina em 2023 obrigou a comercialização de animais por valores próximos ou inferiores ao de aquisição, e a estiagem de 2023 e 2024 comprometeu represas, bebedouros e pastagens, exigindo a compra emergencial de ração e suplementos para conter a perda de peso do rebanho.
Diante da deterioração do fluxo de caixa, as instituições financeiras passaram a exigir mais garantias, elevar juros e promover cobranças extrajudiciais e judiciais, incluindo ações monitórias, execuções e negativações em cadastros de proteção ao crédito, cenário que levou a família a buscar a recuperação judicial como via de reequilíbrio.
O valor da dívida e os maiores credores
O passivo sujeito à recuperação judicial, correspondente ao valor atribuído à causa, soma R$ 61.469.623,18. Com base na relação de credores juntada aos autos, os maiores credores concursais, por volume de crédito, são:
1. Donizete Borges de Campos, com R$ 25.500.000,00;
2. Banco Bradesco S.A., com aproximadamente R$ 14,3 milhões;
3. Cooperativa de Crédito Sicredi Sudoeste MT/PA, com cerca de R$ 4,39 milhões;
4. Cooperativa de Crédito Sicoob Credisul, com aproximadamente R$ 4,26 milhões;
5. Banco Safra S.A., com cerca de R$ 3,94 milhões;
6. Banco do Brasil S.A., com aproximadamente R$ 1,69 milhão;
7. Banco Cooperativo Sicredi S.A., com cerca de R$ 1,08 milhão.
A dívida extraconcursal
Além do passivo concursal, o Grupo Bozetti reconhece dívida extraconcursal no valor total aproximado de R$ 67.068.612,82, majoritariamente vinculada a operações garantidas por alienação fiduciária de imóveis, veículos e equipamentos, entre elas contratos junto à Cooperativa de Crédito Sicredi Sudoeste MT/PA, ao Banco Santander (Brasil) S.A., à Cooperativa de Crédito Sicoob Credisul, ao Banco Safra S.A. e a instituições ligadas ao financiamento de veículos pesados, como Banco Volvo Brasil, Banco Mercedes-Benz do Brasil e Banco Paccar S.A. Somados os passivos concursal e extraconcursal, a dívida total do grupo alcança R$ 128.538.236,00.
Processo, juízo e administrador judicial
A recuperação judicial do Grupo Bozetti tramita sob o número 1039388-73.2026.8.11.0041, perante a 1ª Vara Cível de Cuiabá/MT. Foi nomeada como administradora judicial a empresa Zapaz Administração Judicial Ltda.
Os desafios do setor e do próprio Grupo Bozetti
O caso do Grupo Bozetti ilustra um momento delicado para cadeias produtivas interligadas do agronegócio mato-grossense: a mineração de calcário agrícola, insumo essencial à correção do solo, está diretamente exposta às oscilações de preço das commodities e ao volume de área plantada, enquanto o transporte rodoviário de cargas depende do mesmo ciclo agrícola para manter fretes remuneradores. Quando a lavoura sofre, como ocorreu com a seca de 2023 e 2024 em Mato Grosso, o efeito se propaga em cascata para fornecedores de insumos, transportadoras e produtores pecuaristas, tornando ainda mais difícil equilibrar operações que dependem umas das outras.
Para o Grupo Bozetti, o desafio central será reverter o desempenho ainda deficitário da unidade de mineração, recentemente incorporada ao negócio, sem comprometer a rentabilidade das atividades históricas de transporte e pecuária que sustentam o fluxo de caixa da família. A existência de garantias cruzadas entre as pessoas físicas e as empresas do grupo torna a negociação com credores especialmente complexa, exigindo que o plano de recuperação judicial concilie os interesses de bancos, cooperativas de crédito, fornecedores e trabalhadores em uma única proposta de pagamento.
A superação da crise dependerá, em boa medida, de fatores que escapam ao controle direto dos recuperandos, como a retomada do consumo de calcário agrícola na região, a estabilização dos preços do óleo diesel e de peças automotivas, e a normalização das condições de crédito rural e empresarial no Estado. Ainda assim, a manutenção da atividade produtiva nas Fazendas Fontoura e Castanhal, na frota das transportadoras e na unidade de mineração de Porto Estrela será determinante para que o Grupo Bozetti consiga preservar empregos e cumprir sua função social ao longo do processo recuperacional.
Para saber mais detalhes sobre como funciona o processo de Recuperação Judicial, ter acesso a artigos, doutrina, legislação e jurisprudência atualizada, acesse o link abaixo:
Para conhecer a lista completa de credores apresentada no processo, acesse o arquivo abaixo:
A publicação desta notícia, com todas as informações apresentadas, está baseada no princípio da transparência que norteia o processo de recuperação judicial. Os dados apresentados são públicos e a sua ampla disponibilização ao conhecimento da sociedade está prevista no Art. 22, inciso I, alínea 'k', e no Art. 52, § 1º, incisos I e II, todos da Lei 11.101/2005, bem como Art. 5º inciso LX e Art. 93, inciso IX da Constituição Federal.




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