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62% do crédito oficial da safra 2025/2026 ainda está no cofre dos bancos

  • Foto do escritor: Equipe Sergio Schmidt Advocacia
    Equipe Sergio Schmidt Advocacia
  • 20 de abr.
  • 4 min de leitura

A menos de três meses do fim do Plano Safra 2025/2026, cerca de R$ 70 bilhões em recursos equalizáveis, aquele crédito mais barato, com juros subsidiados pela União, continuam empoçados nos cofres de bancos e cooperativas. É o que revelou reportagem publicada pelo jornal Valor Econômico em sua edição de 17 de abril de 2026.


O número assusta: 62% do total ofertado no início da safra (R$ 113,4 bilhões) ainda não chegou aos médios e grandes produtores rurais. Nas linhas de custeio, sobraram 61% (foram liberados R$ 24,7 bilhões de R$ 63 bilhões programados). Nos investimentos, a sobra é ainda maior: 63% (bancos e cooperativas emprestaram R$ 18,4 bilhões dos R$ 49,5 bilhões reservados). Algumas instituições, segundo fonte do sistema financeiro ouvida pelo Valor, estão literalmente "devolvendo" recursos que haviam assumido o compromisso de liberar.


A explicação oficial é uma só: aversão a risco. Com o aumento da inadimplência e da onda de recuperações judiciais no campo, bancos e cooperativas apertaram o crivo de análise de crédito. Estão mais seletivos. E o dinheiro não sai.



Agricultura sempre foi alavancada — mas 2022 mudou o jogo

Quem acompanha o agronegócio sabe: agricultura é, por natureza, um setor altamente alavancado. O produtor rural trabalha com ciclos longos, investimentos pesados em insumos, maquinário e terras, e receitas concentradas em janelas estreitas de colheita. Crédito não é um luxo, é a espinha dorsal da atividade.


O problema é que, em 2022, quando a saca da soja chegou a bater R$ 200,00, algo mudou na psicologia do setor. E aqui está um ponto que costuma passar despercebido: não foram apenas os produtores que acreditaram que aquele preço se manteria. Os bancos também compraram a narrativa. E compraram com entusiasmo.


Um amigo meu resume a cena daquele período com uma imagem que não sai da minha cabeça: "Tinha banco distribuindo cartão de visita e ofertando crédito para produtor rural em borracharia na beira da estrada." Pode parecer anedota. Não é. É o retrato fiel de um momento em que o sistema financeiro, seduzido pelos preços das commodities, afrouxou critérios, multiplicou linhas e irrigou o campo com dinheiro abundante.



A conta parou de fechar — e o caixa secou

Passados alguns ciclos, a realidade impôs o que a euforia tinha mascarado. O preço da soja recuou. Custos de produção, fertilizantes, defensivos, diesel, dispararam. O clima fez seu papel castigador em várias regiões. E a conta, para muitos produtores, simplesmente parou de fechar.


Os bancos, que antes corriam atrás do cliente, agora fecharam a torneira. E é aqui, no meu entendimento, que mora o maior dos problemas.


Tem uma frase que repito muito: prejuízo quebra devagar, mas problema de fluxo de caixa quebra de uma hora para outra.


O produtor absorve uma safra ruim, uma queda de preço, até duas. O que ele não absorve é perder o oxigênio do crédito no meio do ciclo. Sem linha para rolar dívida, sem limite para custear a próxima safra, sem crédito para honrar fornecedor, o negócio que tinha prejuízo administrável vira insolvência em semanas.


É por isso que, na minha leitura, a explosão de recuperações judiciais no campo observada nos últimos meses tem uma origem financeira clara: não é (só) que o agro deixou de ser viável, é que o agro alavancado perdeu o acesso ao crédito que o sustentava.



Cortar crédito é jogar gasolina no fogo

Aqui está o paradoxo que os R$ 70 bilhões empoçados escancaram: no momento em que o setor mais precisa de capital para atravessar a crise, o sistema financeiro fecha a porta. Na prática, está transformando um problema gerenciável em um problema sistêmico.


E o pior: está fazendo isso com dinheiro público subsidiado em caixa. Recursos equalizáveis pela União, cuja finalidade é fomentar a produção agrícola, estão sendo devolvidos porque os bancos não querem o risco.


Minha posição é direta: simplesmente cortar o crédito não é solução. É jogar gasolina no fogo. Generaliza a crise, empurra para a recuperação judicial produtores que teriam condições de se ajustar com um fôlego adicional e, no fim das contas, aumenta a própria inadimplência que o sistema financeiro alega estar tentando evitar.



O que falta: tirar o terno e calçar a bota

O que defendo é uma postura diferente do sistema financeiro. Uma postura que, aliás, o próprio agronegócio historicamente sempre exigiu dos seus parceiros de verdade: estar na porteira.


O banco precisa tirar o terno, calçar as botas e ir ao campo sujá-las de terra. Precisa analisar caso a caso. Entender qual produtor tem apenas um problema conjuntural e cuja operação segue sustentável no médio prazo. Identificar qual está em situação estrutural irreversível e precisa, aí sim, de uma solução de saída ordenada — muitas vezes, via recuperação judicial bem conduzida.


Essa análise fina, individualizada, é trabalhosa. Exige mais do que rodar score em sistema. Mas é a única forma responsável de aplicar recursos públicos de fomento e, ao mesmo tempo, preservar um setor que responde por parte decisiva do PIB brasileiro.


Conclusão: a recuperação judicial como única e última saída

Se o sistema financeiro seguir operando como está hoje, travando o crédito subsidiado, tratando a crise do campo com a distância de um relatório de risco e devolvendo recursos públicos que deveriam estar financiando a produção, o cenário à frente é previsível: teremos muito mais recuperações judiciais no agronegócio brasileiro.


E aqui faço questão de ser claro. Não digo isso porque a recuperação judicial seja uma boa saída. Não é. Recuperação judicial é remédio amargo, desgastante, caro, e que deixa sequelas operacionais e reputacionais que o produtor carrega por anos. Nenhum empresário rural entra em RJ porque quer. Entra porque precisa.


O ponto é outro, e precisa ficar registrado: para um número crescente de produtores rurais, a recuperação judicial deixou de ser uma opção entre outras e passou a ser a única e última saída. Quando a porta do crédito se fecha no meio do ciclo e o fluxo de caixa trava, não sobra espaço para renegociação bilateral, para rolagem ordenada, para reestruturação fora da Justiça. Sobra a Lei 11.101/2005. Ou sobra a falência.


Essa realidade não é inevitável. É uma escolha. A escolha que o sistema financeiro faz quando prefere empoçar R$ 70 bilhões a tirar o terno e ir ao campo. E o custo dessa escolha, no fim das contas, não é só do produtor. É da cadeia inteira do agronegócio e, em última instância, da economia brasileira.


Sergio Schmidt - sergio@sergioschmidt.com

Advogado, Administrador Judicial, mediador e conciliador judicial, especialista em direito empresarial.


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